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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Norte de Angola

Dois anos no Norte de Angola numa guerra sem tiros onde o mais difícil era não enlouquecer
José Niza mandou cartas a si próprio que lia como se viessem de outra pessoa









Soldados que assavam sardinhas de conserva para matarem saudades de sardinhas frescas. Um rádio transístor abatido a tiro quando transmitia uma canção do cantor Tony de Matos. A experiência de escrever uma carta a si próprio. José Niza fala dos dois anos que passou no Norte de Angola, numa comissão militar, entre 1969 e 1971, altura em que escreveu os seus "Poemas de Guerra", agora editados por O MIRANTE. "Escrevia para descarregar. Como não podia falar alto escrevia. Até agora só a minha mulher, Maria Isabel Mota nome , tinha lido isto", confessa o autor de uma das canções-senha do 25 de Abril, "E Depois do Adeus"



Edição de 2008-04-23



Por: Alberto Bastos






Os militares da sua companhia, a quem este livro vá parar às mãos, vão saber, finalmente, o que o senhor fazia nas longas noites do Norte de Angola, enquanto eles dormiam.

A única pessoa que conhecia alguns destes poemas era a minha mulher, porque eu lhe mandava alguns nas cartas que lhe escrevia.

Não os mandava a amigos?

Não. Aos amigos mandava as canções. Mandava outras coisas. Aqueles poemas escrevia-os terapeuticamente. Era uma forma de descarregar. Nunca escrevi com intenção de mostrar. De publicar. Não podia dizer alto certas coisas e então escrevia. Não havia lá ninguém a quem mostrar o que escrevia. E era um risco. Não tinha interlocutores. O meu interlocutor era o papel.

Há muita ironia nestes seus poemas.

Tem a ver com a minha maneira de ser. Gosto mais de desmontar estas coisas através da sátira do que da denúncia. E tem a ver com o tempo, o lugar, as circunstâncias.

Quando escrevia?

Eu estava sempre de serviço porque não havia mais nenhum médico. Quando era preciso chamavam-me. O meu dia-a-dia era quase sempre igual. Levantava-me por volta das dez da manhã, dava consultas, se fosse caso disso, até à hora de almoço e dava consultas antes de jantar se fosse preciso. O resto do tempo andava por ali. Quando aquela malta se ia deitar e tudo acalmava, começava verdadeiramente o meu dia. Ouvia música, escrevia... todos os dias escrevia à minha mulher uma espécie de diário de guerra. Tenho aí umas oito mil páginas escritas. Escrevia uma dúzia delas por noite.

O que escrevia nessas cartas?

Ali é que está o verdadeiro livro da guerra. Tudo escrito, descrito, exaustivamente relatado, datado. Não há enganos. Uma abordagem de repórter. Se eu quiser saber o que se passou exactamente naqueles dois anos, está tudo ali.

Em Záu Évua (Sete Elefantes), onde fez a sua comissão militar em Angola entre 1969 e 1971, havia alguma povoação?

Não. Aquilo era completamente isolado. De Ambrizete, junto ao litoral, até S. Salvador do Congo, havia uma picada (estrada de terra), ao longo da qual foram semeados aquartelamentos. A oitenta quilómetros de Ambrizete, o Tomboco. A mais oitenta Qienda, etc, S. Salvador ficava a 250 quilómetros da costa.

Havia civis?

Só militares. Na zona do meu aquartelamento não havia mais nada. Havia dois aquartelamentos que tinham nas proximidades aldeias satélite. Foi uma coisa que os americanos inventaram no Vietnam e que nós também fizemos. Iamos buscar populações às zonas de conflito e levávamo-las para ali. Mil e quinhentos habitantes cada uma. Dois aldeamentos. Os cabos e sargentos davam aulas. Os médicos davam apoio.

Prestava cuidados de saúde às populações?

Quando havia necessidade. Lembro-me de uma situação de sarampo numa das aldeias. Sá havia crianças, mulheres e velhos. Os homens estavam na guerrilha. Eu só tinha um terço dos medicamentos necessários para os tratar a todos. Arrisquei dar doses reduzidas e o resultado foi excelente. Ficaram todos curados. Aquilo só de cheirarem os medicamentos ficavam tratados.

Como venciam a solidão?

Eu cheguei a escrever a mim próprio. Mandei cartas a mim próprio que recebia e lia como se viessem de outra pessoa.

O psiquiatra estava a ficar maluco?

Um dia lembrei-me de fazer aquilo. Era uma necessidade de ter contacto com alguém. O Correio ia a Luanda e voltava. Duas semanas depois recebi a minha carta escrita para mim próprio. Havia ali uma sensação de uma pessoa metida no meio.

Durante o seu tempo de comissão foi disparado algum tiro?

Tiros contra o inimigo não. Para além dos tiros que dávamos quando íamos à caça só ouvi um tiro. Um soldado disparou contra um pequeno rádio a pilhas. Não tinha recebido carta da mulher e o sargento que gostava de atazanar o juízo a toda a gente sugeriu-lhe que talvez ela tivesse arranjado outro. O rapaz já não foi ao almoço e foi direito à camarata. Ligou o rádio e estava a passar uma cantiga do Tony de Matos, daquelas para a dor de cotovelo. Ele perdeu a cabeça e deu-lhe um tiro. Uma forma de abater o hipotético amante da esposa.

No meio do mato, noutro Continente, sem qualquer meio de comunicação com a família ou amigos devia ser um desespero.

Só quem esteve lá é que sabe. Vi lá coisas incríveis. Soldados a assar sardinhas de lata como se estivessem a assar sardinhas frescas. Tínhamos saudades de tudo.

Estratagemas para iludir a dura realidade.

Havia lá pessoas que estavam um ano sem falar à família. E o correio às vezes também falhava. A tensão era enorme. Os homens tinham sido treinados para combater e não havia ninguém para combater. As coisas estoiravam por dentro. Andava tudo às cabeçadas.

Eram todos jovens na casa dos vinte anos, carregados de hormonas e sem qualquer contacto com mulheres. É um assunto de que não se fala.

S. Salvador do Congo era a capital do distrito. Todas as quartas-feiras havia uma coluna que ia lá comprar algumas coisas. Os que iam na coluna aproveitavam para ir às "meninas". Umas "meninas" que já andavam naquilo desde o início da guerra, em 1961. Os gonococos (bactérias transmitidas por contacto sexual) estavam resistentes contra tudo o que era antibiótico. E ninguém queria usar preservativo. Era uma carga de trabalhos. Tive que fazer antibiogramas para descobrir qual o tipo de antibiótico mais eficaz.

No prefácio ao seu livro, Francisco Pinto Balsemão fala em "alguma sensualidade comedida". Tem poemas de sensualidade descomedida?

Eu escrevia coisas à minha mulher que não me sinto à vontade para publicar. Tenho muitos poemas desses mas não é necessário estar a expor-me. Guardei-os. Não são para mostar.

Eram eróticos?



Não cabiam na antologia da poesia erótica da Natália Correia. Mas é evidente que havia sensualidade em muitos deles.

Nunca mostrou nenhum poema seu à Natália Correia?

Era muito amigo dela mas ela só conhecia os poemas das minhas canções. Nunca lhe mostrei nenhum.

Que livros tem publicados?

Livros, na verdadeira acepção da palavra, não tenho nenhum. Escrevi aqueles textos sobre o Mário Viegas, sobre o Adriano Correia de Oliveira. Sobre o Zeca Afonso também tenho muita coisa escrita. Tudo junto dava um grande livro.

Este é o seu primeiro livro. Tem projectos para outro?

Tenho uma coisa tipo Sete Vidas. As experiências porque passei. A vida pessoal, a vida da televisão, a vida de Coimbra, a vida da medicina, da guerra, da música e da política. Cada um desses capítulos dá pano para mangas. Já comecei a escrever.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

José Niza - entrevista ao "Mirante" - 23/04/2008

José Niza mandou cartas a si próprio que lia como se viessem de outra pessoa

foto
Soldados que assavam sardinhas de conserva para matarem saudades de sardinhas frescas. Um rádio transístor abatido a tiro quando transmitia uma canção do cantor Tony de Matos. A experiência de escrever uma carta a si próprio. José Niza fala dos dois anos que passou no Norte de Angola, numa comissão militar, entre 1969 e 1971, altura em que escreveu os seus "Poemas de Guerra", agora editados por O MIRANTE. "Escrevia para descarregar. Como não podia falar alto escrevia. Até agora só a minha mulher, Maria Isabel Mota nome , tinha lido isto", confessa o autor de uma das canções-senha do 25 de Abril, "E Depois do Adeus"

Edição de 2008-04-23
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Os militares da sua companhia, a quem este livro vá parar às mãos, vão saber, finalmente, o que o senhor fazia nas longas noites do Norte de Angola, enquanto eles dormiam.
A única pessoa que conhecia alguns destes poemas era a minha mulher, porque eu lhe mandava alguns nas cartas que lhe escrevia.
Não os mandava a amigos?
Não. Aos amigos mandava as canções. Mandava outras coisas. Aqueles poemas escrevia-os terapeuticamente. Era uma forma de descarregar. Nunca escrevi com intenção de mostrar. De publicar. Não podia dizer alto certas coisas e então escrevia. Não havia lá ninguém a quem mostrar o que escrevia. E era um risco. Não tinha interlocutores. O meu interlocutor era o papel.
Há muita ironia nestes seus poemas.
Tem a ver com a minha maneira de ser. Gosto mais de desmontar estas coisas através da sátira do que da denúncia. E tem a ver com o tempo, o lugar, as circunstâncias.
Quando escrevia?
Eu estava sempre de serviço porque não havia mais nenhum médico. Quando era preciso chamavam-me. O meu dia-a-dia era quase sempre igual. Levantava-me por volta das dez da manhã, dava consultas, se fosse caso disso, até à hora de almoço e dava consultas antes de jantar se fosse preciso. O resto do tempo andava por ali. Quando aquela malta se ia deitar e tudo acalmava, começava verdadeiramente o meu dia. Ouvia música, escrevia... todos os dias escrevia à minha mulher uma espécie de diário de guerra. Tenho aí umas oito mil páginas escritas. Escrevia uma dúzia delas por noite.
O que escrevia nessas cartas?
Ali é que está o verdadeiro livro da guerra. Tudo escrito, descrito, exaustivamente relatado, datado. Não há enganos. Uma abordagem de repórter. Se eu quiser saber o que se passou exactamente naqueles dois anos, está tudo ali.
Em Záu Évua (Sete Elefantes), onde fez a sua comissão militar em Angola entre 1969 e 1971, havia alguma povoação?
Não. Aquilo era completamente isolado. De Ambrizete, junto ao litoral, até S. Salvador do Congo, havia uma picada (estrada de terra), ao longo da qual foram semeados aquartelamentos. A oitenta quilómetros de Ambrizete, o Tomboco. A mais oitenta Qienda, etc, S. Salvador ficava a 250 quilómetros da costa.
Havia civis?
Só militares. Na zona do meu aquartelamento não havia mais nada. Havia dois aquartelamentos que tinham nas proximidades aldeias satélite. Foi uma coisa que os americanos inventaram no Vietnam e que nós também fizemos. Iamos buscar populações às zonas de conflito e levávamo-las para ali. Mil e quinhentos habitantes cada uma. Dois aldeamentos. Os cabos e sargentos davam aulas. Os médicos davam apoio.
Prestava cuidados de saúde às populações?
Quando havia necessidade. Lembro-me de uma situação de sarampo numa das aldeias. Sá havia crianças, mulheres e velhos. Os homens estavam na guerrilha. Eu só tinha um terço dos medicamentos necessários para os tratar a todos. Arrisquei dar doses reduzidas e o resultado foi excelente. Ficaram todos curados. Aquilo só de cheirarem os medicamentos ficavam tratados.
Como venciam a solidão?
Eu cheguei a escrever a mim próprio. Mandei cartas a mim próprio que recebia e lia como se viessem de outra pessoa.
O psiquiatra estava a ficar maluco?
Um dia lembrei-me de fazer aquilo. Era uma necessidade de ter contacto com alguém. O Correio ia a Luanda e voltava. Duas semanas depois recebi a minha carta escrita para mim próprio. Havia ali uma sensação de uma pessoa metida no meio.
Durante o seu tempo de comissão foi disparado algum tiro?
Tiros contra o inimigo não. Para além dos tiros que dávamos quando íamos à caça só ouvi um tiro. Um soldado disparou contra um pequeno rádio a pilhas. Não tinha recebido carta da mulher e o sargento que gostava de atazanar o juízo a toda a gente sugeriu-lhe que talvez ela tivesse arranjado outro. O rapaz já não foi ao almoço e foi direito à camarata. Ligou o rádio e estava a passar uma cantiga do Tony de Matos, daquelas para a dor de cotovelo. Ele perdeu a cabeça e deu-lhe um tiro. Uma forma de abater o hipotético amante da esposa.
No meio do mato, noutro Continente, sem qualquer meio de comunicação com a família ou amigos devia ser um desespero.
Só quem esteve lá é que sabe. Vi lá coisas incríveis. Soldados a assar sardinhas de lata como se estivessem a assar sardinhas frescas. Tínhamos saudades de tudo.
Estratagemas para iludir a dura realidade.
Havia lá pessoas que estavam um ano sem falar à família. E o correio às vezes também falhava. A tensão era enorme. Os homens tinham sido treinados para combater e não havia ninguém para combater. As coisas estoiravam por dentro. Andava tudo às cabeçadas.
Eram todos jovens na casa dos vinte anos, carregados de hormonas e sem qualquer contacto com mulheres. É um assunto de que não se fala.
S. Salvador do Congo era a capital do distrito. Todas as quartas-feiras havia uma coluna que ia lá comprar algumas coisas. Os que iam na coluna aproveitavam para ir às "meninas". Umas "meninas" que já andavam naquilo desde o início da guerra, em 1961. Os gonococos (bactérias transmitidas por contacto sexual) estavam resistentes contra tudo o que era antibiótico. E ninguém queria usar preservativo. Era uma carga de trabalhos. Tive que fazer antibiogramas para descobrir qual o tipo de antibiótico mais eficaz.
No prefácio ao seu livro, Francisco Pinto Balsemão fala em "alguma sensualidade comedida". Tem poemas de sensualidade descomedida?
Eu escrevia coisas à minha mulher que não me sinto à vontade para publicar. Tenho muitos poemas desses mas não é necessário estar a expor-me. Guardei-os. Não são para mostar.
Eram eróticos?
Não cabiam na antologia da poesia erótica da Natália Correia. Mas é evidente que havia sensualidade em muitos deles.
Nunca mostrou nenhum poema seu à Natália Correia?
Era muito amigo dela mas ela só conhecia os poemas das minhas canções. Nunca lhe mostrei nenhum.
Que livros tem publicados?
Livros, na verdadeira acepção da palavra, não tenho nenhum. Escrevi aqueles textos sobre o Mário Viegas, sobre o Adriano Correia de Oliveira. Sobre o Zeca Afonso também tenho muita coisa escrita. Tudo junto dava um grande livro.
Este é o seu primeiro livro. Tem projectos para outro?
Tenho uma coisa tipo Sete Vidas. As experiências porque passei. A vida pessoal, a vida da televisão, a vida de Coimbra, a vida da medicina, da guerra, da música e da política. Cada um desses capítulos dá pano para mangas. Já comecei a escrever

Tomboco

Militares profissionais

Há mais Almirantes nas Forças Armadas que navios de Guerra no activo.
Há hoje, mais Generais a "comandar" a GNR,  que havia na guerra de África em Angola. Isto pode acontecer?
Uma resposta que o militares, profissionais, de carreira tem que compreender porque são criticados.
As Assoc de Militares tem que ter muito cuidado com as reenvidicações que suportam.
São militares, não são funcionários públicos e até por isso, tem que manter preservar e dar exemplo como tal.
Vamos aguardar que "guerra" entre o Governo e os militares  acabe da melhor maneira.
Aguardemos
 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012